-
Página Inicial
- Bionorte
- Notícias da Bionorte
Estudo da Rede Bionorte mapeia mosquitos de importância para a saúde pública na Amazônia
Pesquisa analisou mais de 3,6 mil mosquitos, identificou espécies de importância epidemiológica e reuniu dados que podem contribuir para a prevenção de doenças na Amazônia
Macapá - Uma pesquisa desenvolvida pelo pesquisador Everson dos Santos David, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal (Rede Bionorte), na Universidade Federal do Amapá (Unifap), analisou o amostral de 3.671 mosquitos, distribuídos em 35 espécies, em diferentes em áreas do município de Mazagão, no Amapá.
O estudo revelou a presença de espécies associadas à transmissão de doenças e apontou condições ambientais favoráveis à proliferação desses insetos, especialmente, durante o período chuvoso.
Os resultados foram publicados em outubro de 2026, em uma importante revista internacional, a Medical and Veterinary Entomology, vinculada à Royal Entomological Society. A pesquisa contribui para expandir o conhecimento sobre a diversidade de mosquitos na Amazônia e oferece informações que podem auxiliar no monitoramento e na prevenção de doenças, como febre do Oropouche, febre amarela e malária.
Além de David, a pesquisa foi desenvolvida em colaboração com Shirley Vasconcelos Komninakis, Letice Lima da Silva, Erique da Costa Fonseca, Karen Carmo dos Santos, Ledayane Mayana Costa Barbosa e Raimundo Nonato Picanço Souto.
O trabalho contou com apoio da Universidade Federal do Amapá e financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
O que motivou a pesquisa?
A investigação surgiu da necessidade de compreender melhor a diversidade e a distribuição dos mosquitos em regiões amazônicas com histórico de doenças transmitidas por vetores. Os pesquisadores escolheram os distritos de Mazagão Velho e Carvão, no município de Mazagão, por serem áreas com registros anteriores de febre do Oropouche e malária.
O município registrou surtos de febre do Oropouche em 1980 e 2009. Além disso, o avanço do desmatamento, as mudanças no uso do solo e a ocupação humana de áreas próximas à floresta podem modificar os ambientes de reprodução dos mosquitos e favorecer a presença de espécies com importância para a saúde pública.
Diante desse cenário, a equipe buscou identificar quais espécies estavam presentes, em que quantidade apareciam e de que maneira fatores como chuva, vegetação e altura das áreas de coleta influenciavam sua distribuição.
Como o estudo foi realizado?
As atividades de campo ocorreram entre janeiro e dezembro de 2024, abrangendo os períodos mais e menos chuvosos da região.
Foram estabelecidos oito pontos de coleta, distribuídos igualmente entre os distritos de Mazagão Velho e Carvão. Os pesquisadores utilizaram armadilhas luminosas instaladas próximas ao solo e na copa das árvores, além de uma técnica de captura de mosquitos atraídos pela presença humana, executada com equipamentos de proteção.
Após a coleta, os exemplares foram encaminhados ao Laboratório de Artrópodes da Universidade Federal do Amapá, onde passaram por identificação e classificação. Ao todo, foram registradas 35 espécies pertencentes a 11 gêneros, incluindo grupos conhecidos por sua importância na transmissão de agentes causadores de doenças.
Resultados revelam espécies de importância para a saúde
Entre os principais resultados, a pesquisa identificou a predominância da espécie Coquillettidia venezuelensis, responsável por 1.364 exemplares, o equivalente a precisamente 37,16% de todos os mosquitos coletados.
Essa espécie merece atenção por apresentar registros de associação com o ciclo silvestre do vírus Oropouche em estudos anteriores. Sua elevada presença nas áreas analisadas reitera a importância do acompanhamento das populações de mosquitos na região.
Outro resultado relevante foi o primeiro registro do mosquito Aedes albopictus no município de Mazagão. Conhecido popularmente como mosquito-tigre-asiático, ele possui importância epidemiológica devido à sua capacidade de participar da transmissão de diferentes arbovírus em determinadas condições.
A pesquisa também aumentou o conhecimento sobre a distribuição geográfica de outras cinco espécies de mosquitos, registradas pela primeira vez no município: Coquillettidia lynchi, Limatus pseudomethysticus, Psorophora lutzii, Uranotaenia calosomata e Uranotaenia histera.
Além disso, foram encontrados exemplares do gênero Anopheles, incluindo Anopheles darlingi, considerado um dos principais transmissores da malária na Amazônia brasileira.
Os resultados não significam, entretanto, que os mosquitos coletados estivessem infectados. O levantamento identificou a presença e a abundância de espécies com potencial importância epidemiológica.
Período chuvoso concentra mais de 80% dos mosquitos
A influência das chuvas foi outro aspecto importante identificado pela pesquisa.
Dos 3.671 mosquitos coletados, 2.999 foram encontrados no período chuvoso, representando 81,69% do total. Já na época menos chuvosa, foram registrados 672 exemplares.
A diferença demonstra como a disponibilidade de água e as condições ambientais influenciam diretamente a reprodução e a abundância desses insetos.
Durante o inverno amazônico, o aumento das chuvas favorece a formação e a manutenção de ambientes utilizados pelos mosquitos para reprodução. Já nos meses com menor precipitação, a redução de criadouros temporários contribui para a diminuição das populações de muitas espécies.
O estudo também identificou diferenças na distribuição dos insetos entre o solo e a copa das árvores, mostrando que determinadas espécies ocupam preferencialmente ambientes específicos dentro da floresta.
Essas informações podem ajudar a definir períodos e locais prioritários para o monitoramento entomológico, tornando mais direcionadas as ações de vigilância.
Pesquisa terá continuidade com análises moleculares
Embora o levantamento da diversidade de mosquitos esteja concluído e publicado, o trabalho também abriu caminho para novas investigações.
Parte dos exemplares coletados foi destinada a análises metagenômicas, que permitem investigar o material genético presente nas amostras. Essa etapa poderá contribuir para identificar vírus associados aos mosquitos estudados, além de debater novos episódios sobre o conhecimento da circulação de agentes infecciosos na região.
Os resultados dessas análises não fazem parte do artigo publicado. Os autores também recomendam futuras investigações com técnicas de biologia molecular moleculares para diferenciar espécies visualmente semelhantes, mas geneticamente distintas.
O objetivo é avançar do conhecimento sobre a presença dos mosquitos para uma compreensão mais detalhada de suas relações com os agentes causadores de doenças.
Contribuição para a saúde pública na Amazônia
Os resultados oferecem uma base científica para o planejamento de ações de vigilância epidemiológica e controle de mosquitos em regiões amazônicas. A pesquisa contribui para reconhecer áreas que merecem acompanhamento prioritário pelos órgãos de saúde. O estudo também demonstra a importância de compreender as relações entre biodiversidade, mudanças ambientais e saúde humana, especialmente em comunidades próximas a áreas de floresta.
Artigo científico: Abundance and species diversity of mosquitoes (Diptera, Culicidae) in endemic areas for arboviruses in the Eastern Amazon, Brazil.
Publicação: Medical and Veterinary Entomology (2026).
Acesso: https://doi.org/10.1111/mve.70127
Data: 05/11/2026