-
Página Inicial
- Bionorte
- Notícias da Bionorte
Pesquisa da Rede Bionorte desenvolve vacina experimental com 100% de proteção contra doenças aviárias
Estudo foi realizado em parceria entre a Universidade Federal do Tocantins (UFT), e a empresa de biotecnologia Antigen Ltda, em Gurupi – Tocantins. O estudo demonstrou a eficácia de uma vacina de dose única contra duas bactérias que provocam doenças e prejuízos à avicultura.
Tocantins, Palmas - Uma vacina experimental desenvolvida por pesquisadores brasileiros, incluindo integrantes da Rede de Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal (Bionorte), alcançou 100% de proteção em testes realizados com camundongos contra duas bactérias responsáveis por doenças que afetam a criação de aves. O resultado foi superior ao de uma vacina comercial utilizada como referência no estudo, que apresentou 67% de sobrevivência dos animais após a exposição aos mesmos agentes infecciosos.
A pesquisa foi publicada na última terça-feira, 27 de outubro de 2026, na revista científica internacional Vaccines. O trabalho contou com a participação de pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal (Rede Bionorte), vinculados à Universidade Federal do Tocantins (UFT), e de outras instituições brasileiras.
Os experimentos, produção dos antígenos e formulação vacinal foram conduzidos no Bloco B da empresa Antigen Ltda, enquanto que os testes pré-clínicos foram realizados no Laboratório de Biomoléculas e Vacinas (LaBVac), da UFT. O artigo tem como primeiro autor Hélio S. Brito, pesquisador vinculado ao PPG-Bionorte/UFT, e inclui outros integrantes do programa, como Marcela O. Ferreira, Frederico Eugenio, e Alex S. R. Cangussu.
O objetivo foi desenvolver uma vacina capaz de oferecer proteção simultânea contra a cólera aviária e o tifo aviário, duas doenças bacterianas que podem provocar elevada mortalidade nos plantéis, comprometer a produção e gerar prejuízos econômicos aos produtores.
A cólera aviária é causada pela bactéria Pasteurella multocida, enquanto o tifo aviário é provocado pela Salmonella Gallinarum. Ambas representam desafios para a sanidade animal, especialmente, em sistemas de produção nos quais a circulação desses microrganismos pode favorecer a ocorrência de surtos.
Como a vacina foi desenvolvida?
A pesquisa envolveu diferentes etapas, desde a preparação dos componentes da vacina até a avaliação da proteção e da resposta imunológica dos animais.
Inicialmente, os pesquisadores utilizaram amostras das duas bactérias, fornecidas por laboratórios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Esses microrganismos foram cultivados em laboratório e posteriormente inativados, ou seja, passaram por um processo que eliminou sua capacidade de multiplicação.
Com isso, foi possível produzir uma vacina contendo componentes das duas bactérias, sem utilizar microrganismos capazes de provocar infecção.
A formulação também recebeu uma combinação de quitosana, hidróxido de alumínio e saponina, substâncias utilizadas para estimular e melhorar a resposta do sistema imunológico à vacinação.
Essa combinação foi uma das estratégias prioritárias da pesquisa. Os cientistas buscavam desenvolver uma vacina capaz de oferecer proteção contra as duas doenças com apenas uma aplicação, reduzindo a necessidade de doses adicionais.
Testes identificaram a dose mais eficiente
Na primeira etapa experimental, os pesquisadores avaliaram três quantidades diferentes da vacina: 50, 125 e 250 microlitros. Foram utilizados camundongos divididos em grupos, acompanhados durante 21 dias após a vacinação.
Nesse período, a equipe monitorou o peso dos animais e possíveis alterações de saúde. Posteriormente, os camundongos foram expostos separadamente às bactérias para avaliar a proteção oferecida por cada dose.
A maior dose, de 250 microlitros, apresentou os melhores resultados iniciais: 100% de sobrevivência contra a Pasteurella multocida e 83% contra a Salmonella Gallinarum. As doses menores tiveram desempenho inferior, o que levou os pesquisadores a selecionar a concentração mais elevada para a etapa seguinte.
Com a quantidade definida, a equipe realizou novos experimentos para comparar a vacina desenvolvida com uma vacina comercial destinada à avicultura.
Os animais foram divididos em grupos que receberam a formulação experimental em dose única, a vacina comercial em duas aplicações, os componentes auxiliares sem os antígenos bacterianos ou uma solução de controle.
Após a imunização, os camundongos foram expostos às bactérias e acompanhados durante sete dias.
Vacina experimental alcançou 100% de sobrevivência
Na etapa comparativa, todos os camundongos que receberam a vacina experimental sobreviveram à exposição às bactérias responsáveis pela cólera aviária e pelo tifo aviário.
Já entre os animais imunizados com a vacina comercial, a taxa de sobrevivência foi de 67%. No grupo que recebeu apenas os componentes auxiliares da formulação, o índice foi de 17%. Nenhum animal sobreviveu no grupo de controle sem vacinação.
Os resultados demonstraram que, nas condições avaliadas, uma única aplicação da vacina experimental foi suficiente para garantir proteção completa nos camundongos, enquanto a vacina comercial utilizada como referência foi administrada em duas doses, com intervalo de 14 dias.
Os pesquisadores também analisaram substâncias produzidas pelo sistema imunológico, chamadas citocinas, para compreender como os organismos respondiam à vacinação e à exposição às bactérias.
As análises mostraram que a vacina de dose única conseguiu estimular uma resposta imunológica protetora. Embora duas aplicações da formulação experimental tenham aumentado alguns indicadores da atividade imunológica contra a Salmonella Gallinarum, isso não resultou em maior sobrevivência, pois os animais que receberam apenas uma dose também estavam protegidos.
Outro resultado importante foi a ausência de alterações relevantes no ganho de peso dos camundongos associadas à dose selecionada, um indicador favorável de segurança nas condições do experimento.
Potencial para reduzir custos e perdas na avicultura
O trabalho engloba uma contribuição para o desenvolvimento de novas estratégias de prevenção de doenças na produção de aves. A tecnologia poderá contribuir para reduzir o número de aplicações necessárias, facilitar os programas de vacinação e diminuir os custos relacionados ao manejo dos animais.
A proteção simultânea contra duas doenças também poderá ajudar a reduzir perdas provocadas por surtos bacterianos, com possíveis benefícios para a produtividade e a segurança sanitária da avicultura.
Apesar dos resultados positivos, os autores ressaltam que a vacina ainda está em fase experimental e não foi testada diretamente em aves. Como existem diferenças entre o sistema imunológico dos camundongos e o das galinhas, serão necessários novos estudos para comprovar a eficácia e a segurança da formulação na espécie a que se destina.
Rede Bionorte
A publicação tem pesquisadores de diferentes instituições brasileiras e detalha a participação da Rede Bionorte na produção de conhecimento científico e no desenvolvimento de soluções biotecnológicas com potencial de aplicação no setor produtivo.
Além da UFT, o estudo contou com a colaboração de pesquisadores vinculados a instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), a UEL e a UFRGS, entre outras.
A pesquisa recebeu apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) referente ao Programa RHAE -Pesquisador na empresa, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da empresa Antigen.
Publicação científica
Título original: Combined Salmonella and Pasteurella multocida Antigens Single-Dose and Adsorbed in Aluminum Hydroxide–Chitosan Protect Swiss Mice Against Lethal Challenge
Revista: Vaccines
Data de publicação: 27 de outubro de 2026.
Acesse o artigo completo: https://doi.org/10.3390/vaccines14110931
Data: 30/10/2026