Pesquisa da Rede Bionorte descreve nova espécie de parasito encontrada em peixe da Amazônia

Estudo realizado em Belém identificou o parasito em 79,2% dos exemplares de pescada-preta analisados e foi aceito para publicação na revista científica internacional Parasitology International

Belém, PA - Pesquisadores vinculados à Rede Bionorte e à Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) descreveram uma nova espécie de parasito encontrada na musculatura da pescada-preta (Plagioscion auratus), peixe de importância econômica e ecológica na região amazônica. Denominada Kudoa chromosomatum, a espécie foi identificada em 38 dos 48 exemplares examinados, correspondentes a 79,2% da amostra coletada na Ilha de Jutuba, no arquipélago de Belém, no Pará.

A descoberta foi apresentada em artigo científico que tem como primeira autora Camila Maria Barbosa Pereira, egressa do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Biotecnologia da Rede Bionorte (PPG-BIONORTE), vinculado à Universidade Federal do Pará (UFPA). O trabalho foi aceito em 13 de outubro de 2026 pela revista internacional Parasitology International, editada pela Elsevier, e disponibilizado antecipadamente em versão científica anterior à edição definitiva.

Intitulado Description of Kudoa chromosomatum n. sp. (Myxozoa: Multivalvulida) infecting the skeletal muscle of Plagioscion auratus in the Brazilian Amazon, o estudo amplia o conhecimento sobre a biodiversidade de parasitos de peixes amazônicos e contribui para a compreensão das relações entre esses organismos e seus hospedeiros.

Descoberta ocorreu em peixes coletados na Ilha de Jutuba

A pesquisa analisou 48 exemplares de pescada-preta coletados na margem leste da Ilha de Jutuba, localizada entre as baías de Santo Antônio e Guajará, na região da foz amazônica.

A pescada-preta é uma espécie nativa da América do Sul, encontrada na bacia amazônica e explorada comercialmente pela atividade pesqueira, especialmente nas regiões do baixo e médio Amazonas. Além de sua importância econômica, o peixe participa das relações ecológicas de ambientes de água doce e estuarinos.

Após a coleta, os exemplares foram encaminhados ao Laboratório de Integração Morfo-Molecular e Tecnologias (LIMT), do Instituto da Saúde e Produção Animal (ISPA), da UFRA, em Belém.

Os pesquisadores realizaram análises microscópicas, histológicas e moleculares para identificar os organismos encontrados nos tecidos dos peixes. O procedimento permitiu observar as características estruturais do parasito, as alterações provocadas na musculatura e suas relações evolutivas com outras espécies já conhecidas.

A combinação dessas técnicas foi fundamental para confirmar que se tratava de uma espécie ainda não descrita cientificamente.

Parasito foi encontrado em quase 80% dos peixes analisados

Um dos principais resultados foi a frequência da infecção na amostra. Dos 48 peixes examinados, 38 apresentaram a presença do novo parasito na musculatura esquelética.

As análises identificaram estruturas microscópicas denominadas pseudocistos, que continham esporos do parasito no interior das fibras musculares. Esses esporos apresentaram formato aproximadamente quadrangular, quatro cápsulas polares alongadas e características morfológicas distintas das registradas em outras espécies do mesmo gênero.

Os pesquisadores observaram ainda alterações nos tecidos dos animais infectados. Em determinadas regiões, parte das fibras musculares havia sido substituída por tecido conjuntivo, indicando uma resposta crônica associada à presença do parasito, com formação de depósitos fibróticos.

A observação tem relevância para a parasitologia de peixes, uma vez que integrantes do gênero Kudoa podem provocar alterações na musculatura dos hospedeiros. Algumas espécies já conhecidas estão associadas à redução da qualidade comercial de produtos pesqueiros.

O gênero Kudoa também apresenta potencial zoonótico, uma vez que determinadas espécies já foram associadas a episódios de intoxicação alimentar em seres humanos após o consumo de pescado contaminado.

Entretanto, o estudo não avaliou diretamente os efeitos da nova espécie sobre a qualidade do pescado destinado ao consumo nem demonstrou risco de transmissão para seres humanos.

Análises genéticas confirmaram a nova espécie

Além da avaliação microscópica, a equipe utilizou técnicas de biologia molecular para investigar o material genético do parasito.

O sequenciamento de uma região do DNA ribossomal permitiu comparar a espécie encontrada no Pará com outras integrantes do gênero Kudoa, conhecido por reunir mais de uma centena de espécies de parasitos de peixes.

Os resultados demonstraram diferenças genéticas e morfológicas que sustentaram a identificação de Kudoa chromosomatum como uma nova espécie.

A análise filogenética, utilizada para investigar relações evolutivas entre organismos, posicionou o parasito em um grupo que reúne outras espécies identificadas na Amazônia brasileira, reforçando a existência de relações evolutivas entre esses organismos.

Segundo o artigo, esta é a primeira espécie do gênero Kudoa descrita em Plagioscion auratus e a segunda registrada em um peixe brasileiro da família Sciaenidae, à qual pertence a pescada-preta.

O nome chromosomatum faz referência à semelhança do formato do parasito com cromossomos metacêntricos, estruturas celulares que apresentam uma configuração característica.

O material utilizado na descrição científica foi depositado na Coleção de Invertebrados do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus. A sequência genética também foi registrada no banco internacional GenBank, permitindo sua utilização em futuras pesquisas.

Descoberta contribui para o conhecimento da biodiversidade amazônica

A identificação de uma nova espécie de parasito amplia o conhecimento sobre a diversidade biológica da Amazônia, especialmente de organismos microscópicos que ainda são pouco estudados.

Embora frequentemente associados a doenças, os parasitos também desempenham funções ecológicas e participam de relações complexas com seus hospedeiros. O estudo dessas interações contribui para compreender aspectos da evolução, distribuição e dinâmica das espécies nos ecossistemas aquáticos.

No caso de Kudoa chromosomatum, os resultados também podem subsidiar investigações futuras sobre a saúde dos peixes e os possíveis efeitos das infecções parasitárias sobre espécies exploradas comercialmente.

A descoberta reitera a importância de associar métodos tradicionais de identificação biológica a ferramentas moleculares, principalmente em regiões de elevada biodiversidade, como a Amazônia.

Pesquisa reúne instituições e fortalece a formação científica

O artigo tem autoria de Camila Maria Barbosa Pereira, Amanda Azevedo, Jhonata Eduard, Marcelo Francisco da Silva, José Ledamir Sindeaux-Neto e Michele Velasco.

A equipe reúne pesquisadores vinculados à Universidade Federal Rural da Amazônia, à Universidade Federal do Pará e à Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL). Camila Maria Barbosa Pereira e Marcelo Francisco da Silva apresentam vínculo acadêmico com o PPG-BIONORTE entre suas afiliações científicas.

A pesquisa também está relacionada à trajetória acadêmica de Camila na Rede Bionorte. Sua tese, intitulada Caracterização morfológica, histopatológica e filogenia molecular de mixozoários em Ageneiosus ucayalensis e Plagioscion auratus capturados na Ilha de Jutuba, Belém, Pará, foi defendida em 6 de março de 2026.

O trabalho de doutorado abordou a caracterização de parasitos encontrados em peixes amazônicos, incluindo a espécie apresentada no artigo internacional.

A publicação representa mais uma contribuição da Rede Bionorte para a produção de conhecimento científico sobre a biodiversidade amazônica, valorizando a formação de pesquisadores e a cooperação entre instituições de ensino e pesquisa.

O artigo também presta homenagem à memória do pesquisador Edilson Matos, reconhecido por suas contribuições aos estudos sobre a diversidade de microparasitos de peixes na Amazônia brasileira.

Acesso à publicação

Título: Description of Kudoa chromosomatum n. sp. (Myxozoa: Multivalvulida) infecting the skeletal muscle of Plagioscion auratus in the Brazilian Amazon

Revista: Parasitology International

Editora: Elsevier

Data de aceite: 13 de outubro de 2026

Disponibilização on-line: 15 de outubro de 2026, em versão antecipada

DOI: https://doi.org/10.1016/j.parint.2026.103410
Data: 19/10/2026
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