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Pesquisa de doutoranda da Rede Bionorte sobre metais em manguezais amazônicos é publicado em revista científica internacional
Estudo realizado no Maranhão identifica maior contaminação por metais em áreas sob influência portuária e revela diferentes padrões de acumulação em três espécies de mangue, oferecendo subsídios para aprimorar o monitoramento ambiental.
São Luís, Maranhão - Uma pesquisa desenvolvida pela doutoranda Jacyara Nascimento Corrêa, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal (Rede Bionorte) e integrante do Laboratório de Biotecnologia e Toxicologia Ambiental (BioTox), da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), foi publicada na revista científica internacional Science of the Total Environment, da editora Elsevier.
O trabalho foi desenvolvido sob orientação da Prof.ª Dr.ª Marianna Basso Jorge, da UFMA, e coorientação do Prof. Dr. Carlos Eduardo de Rezende, da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), fortalecendo a cooperação científica entre as instituições.
O estudo investigou a contaminação por metais em manguezais do Maranhão, na costa amazônica brasileira, e identificou que áreas sob influência de atividades portuárias apresentaram maiores indicadores de contaminação. Entretanto, os resultados também revelaram que a acumulação desses elementos nas plantas não acompanhou, necessariamente, os níveis de contaminação observados no ambiente.
A pesquisa demonstrou que três espécies de mangue apresentaram diferentes padrões de acumulação e distribuição de metais em seus tecidos, evidenciando a importância de considerar as características dos sedimentos e as respostas biológicas na avaliação da contaminação ambiental.
Publicado on-line em 15 de outubro de 2026, o artigo tem como título original Species-specific metal handling reveals the decoupling between environmental contamination and biological accumulation in Amazonian mangroves. A publicação integra o volume 1054 da revista, sob o número 182350.
Pesquisa investigou seis pontos de amostragem em manguezais do Maranhão
O trabalho foi realizado no Golfão Maranhense, na costa amazônica brasileira, abrangendo dois importantes sistemas estuarinos: os complexos de São Marcos e de São José.
Foram selecionados seis pontos de amostragem, sendo quatro no Complexo Estuarino de São Marcos, sob influência de atividades portuárias, industriais e outras pressões antrópicas, e dois no Complexo Estuarino de São José, caracterizado por menor influência portuária.
A coleta das amostras ocorreu em junho de 2023, durante o período final da estação chuvosa. Os pesquisadores analisaram a água, os sedimentos e plântulas — plantas em estágio inicial de desenvolvimento — de três espécies predominantes nos manguezais da região: Avicennia germinans, Laguncularia racemosa e Rhizophora mangle.
As análises incluíram a quantificação de diferentes elementos, como alumínio, ferro, zinco, manganês, mercúrio, cobre, chumbo, cádmio e arsênio, além da caracterização geoquímica dos sedimentos. As plântulas foram separadas em raízes, caules e folhas, permitindo investigar como os elementos são acumulados e distribuídos entre os tecidos vegetais.
Áreas sob influência portuária apresentaram maior contaminação
Os resultados identificaram maiores concentrações de diversos metais e indicadores mais elevados de contaminação em determinados pontos do Complexo Estuarino de São Marcos, especialmente naqueles sob influência de atividades portuárias.
O Índice de Carga Poluidora (PLI), utilizado para avaliar a contaminação dos sedimentos, apresentou valores superiores a 1 em três pontos desse complexo, atingindo 2,3 em uma das áreas analisadas.
Embora os índices agregados de risco ecológico tenham indicado baixo risco potencial nas condições avaliadas, alguns elementos, como arsênio, cromo e níquel, ultrapassaram determinados valores de referência para a qualidade dos sedimentos. Esses resultados reforçam a importância de integrar diferentes indicadores na avaliação ambiental, uma vez que índices de risco isolados podem não refletir todos os possíveis efeitos ecológicos.
Entretanto, um dos principais resultados surgiu quando os pesquisadores compararam as concentrações ambientais com os metais encontrados nos tecidos vegetais.
Mesmo em áreas com menor influência portuária, determinadas espécies apresentaram concentrações relativamente elevadas de alguns metais.
Esse resultado indica que a presença de metais no ambiente, por si só, não permite prever sua acumulação nas plantas. Fatores como a geoquímica dos sedimentos, a disponibilidade dos elementos e as respostas específicas das espécies também estão associados aos padrões observados.
Três espécies de mangue apresentaram respostas distintas
Ao investigar a distribuição dos metais entre raízes, caules e folhas, os pesquisadores identificaram comportamentos diferentes nas três espécies estudadas.
A Avicennia germinans (mangue-preto) apresentou maior tendência de translocação dos metais absorvidos para as partes aéreas, como caules e folhas, demonstrando um padrão predominantemente associado à redistribuição interna desses elementos.
A Laguncularia racemosa (mangue-branco) apresentou respostas mais variáveis conforme as condições ambientais. Nos locais sob maior influência portuária, predominou a retenção dos metais nas raízes, enquanto nas áreas com menor influência portuária foi observada maior tendência de translocação para os tecidos aéreos.
Já a Rhizophora mangle (mangue-vermelho) apresentou, de modo geral, menor acumulação de metais em relação às outras espécies, além de um padrão comparativamente mais estável de redistribuição interna, também caracterizado pela predominância de translocação dos elementos absorvidos.
Essas diferenças demonstram que as espécies de mangue não apresentam uma resposta única à exposição a metais, reforçando a importância de considerar suas particularidades na interpretação dos níveis de contaminação ambiental.
Tríade Funcional: uma abordagem para compreender a dinâmica dos metais nos manguezais
Com base nos resultados, os pesquisadores propuseram uma abordagem conceitual denominada Tríade Funcional dos Manguezais (Functional Triad).
A proposta sintetiza padrões de absorção, acumulação e translocação de metais nas três espécies estudadas, avaliados por meio de índices de bioconcentração, bioacumulação e translocação.
Nesse contexto, a Avicennia germinans destacou-se pela tendência de redistribuição interna dos metais; a Laguncularia racemosa, pela flexibilidade de suas respostas conforme as condições ambientais; e a Rhizophora mangle, pela menor acumulação relativa e por um padrão de redistribuição comparativamente mais estável.
Esses comportamentos são interpretados considerando a interação entre a geoquímica dos sedimentos, a disponibilidade inferida dos metais e a influência das atividades humanas.
A Tríade Funcional constitui uma proposta conceitual fundamentada nas associações identificadas durante a pesquisa, e não um modelo fisiológico já validado experimentalmente. Sua aplicação em outros ambientes e períodos de amostragem ainda precisa ser investigada.
A abordagem oferece uma perspectiva para complementar as avaliações tradicionais de contaminação, frequentemente baseadas apenas nas concentrações químicas encontradas na água e nos sedimentos.
Contribuições para o monitoramento e a conservação dos manguezais
Os manguezais desempenham funções ecológicas essenciais, como a proteção da zona costeira, a manutenção da biodiversidade e o armazenamento de carbono. Entretanto, determinadas áreas estão sujeitas a pressões relacionadas às atividades portuárias, industriais e urbanas.
Nesse contexto, compreender não apenas a presença de contaminantes, mas também como eles são acumulados e distribuídos nos organismos, é fundamental para aprimorar a interpretação das condições ambientais.
Os resultados reforçam a importância de integrar informações sobre a qualidade da água, a geoquímica dos sedimentos e as respostas das diferentes espécies de mangue.
Essa perspectiva pode contribuir para o desenvolvimento de abordagens de monitoramento ambiental que considerem indicadores biológicos e características locais, ampliando o conhecimento sobre a dinâmica dos metais em ecossistemas costeiros tropicais.
Pesquisa fortalece a produção científica da Rede Bionorte
Além de Jacyara Nascimento Corrêa, o artigo é assinado por Daniel Richard Lemos Brito, Ricardo Luvizotto-Santos, Carlos Eduardo de Rezende e Marianna Basso Jorge.
O trabalho reúne pesquisadores vinculados à Rede Bionorte, à Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e à Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), destacando a importância da cooperação científica entre instituições brasileiras.
A pesquisa contou com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), por meio de bolsa de doutorado concedida a Jacyara Nascimento Corrêa no âmbito da Rede Bionorte.
O trabalho recebeu ainda apoio financeiro do Programa de Apoio à Pós-Graduação (PROAP/CAPES), vinculado à Rede Bionorte, para mobilidade acadêmica e realização de parte das análises laboratoriais na UENF.
A publicação representa uma contribuição ao conhecimento científico sobre a contaminação por metais em manguezais da costa amazônica brasileira, destacando a importância da pesquisa desenvolvida na região para a compreensão e o monitoramento de seus ecossistemas costeiros.
Acesso ao artigo científico
Título: Species-specific metal handling reveals the decoupling between environmental contamination and biological accumulation in Amazonian mangroves
Revista: Science of the Total Environment — Elsevier
Publicação on-line: 15 de outubro de 2026
Volume: 1054 | Artigo: 182350
DOI: https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2026.182350
Data: 19/10/2026