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Resíduo do açaí vira matéria-prima para papel e reforça potencial da bioeconomia amazônica
Estudo desenvolvido por pesquisadores da Rede Bionorte aponta que fibras descartadas durante o processamento do fruto podem ser transformadas em celulose para produção de papel
Belém, PA - O que hoje é tratado como resíduo em grande parte da cadeia produtiva do açaí pode se tornar matéria-prima para novos produtos sustentáveis. Pesquisa conduzida por pesquisadores vinculados à Rede de Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal (Bionorte) demonstrou a viabilidade da conversão das fibras descartadas do fruto em celulose para produção de papel, abrindo novas perspectivas para a bioeconomia e o aproveitamento integral dos recursos amazônicos.
O estudo, intitulado "Converting açaí waste fibers into paper-grade cellulose by soda pulping: Temperature and time effects on efficiency, cost, and sustainability", foi publicado na revista científica Polymers from Renewable Resources.
O trabalho foi liderado pelo pesquisador Dhimitrius Neves Paraguassú Smith de Oliveira, da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), e contou com a participação de Lays Camila Matos, Elesandra da Silva Araújo, Ingryd Aranda Maciel da Silva, Valéria de Jesus Pereira, Carla Priscilla Távora Cabral, Tiago Marcolino de Souza, Lourival Marin Mendes, Gustavo Henrique Denzin Tonoli, Michael Douglas Roque Lima, Thiago de Paula Protásio, Qüinny Soares Rocha, Rafael de Ávila Delucis e Lina Bufalino.
Entre os autores estão pesquisadores e estudantes vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal (PPG-Bionorte), reforçando a contribuição da Rede para o desenvolvimento de soluções inovadoras voltadas ao aproveitamento sustentável dos recursos da Amazônia.
A pesquisa partiu de um desafio comum à realidade amazônica. Embora o açaí seja um dos produtos mais importantes da economia regional, cerca de 81% da massa do fruto transforma-se em resíduo após o processamento. Parte desse material é composta por fibras ricas em celulose, que normalmente têm pouco aproveitamento econômico e podem gerar impactos ambientais quando descartadas inadequadamente.
Para avaliar o potencial dessas fibras, os pesquisadores testaram diferentes combinações de temperatura e tempo em um processo conhecido como polpação soda, utilizado para separar a celulose dos demais componentes vegetais. O objetivo foi identificar as condições mais eficientes para produzir uma polpa celulósica capaz de ser utilizada na fabricação de papel.
Os resultados mostraram que temperaturas mais elevadas proporcionaram melhor remoção da lignina — substância responsável pela rigidez das fibras vegetais — e permitiram a individualização das fibras necessárias para a formação do papel. O tratamento realizado a 160°C durante 60 minutos foi apontado como a melhor combinação entre eficiência do processo, rendimento e custo de produção. Nessa condição, os pesquisadores obtiveram rendimento de aproximadamente 21% da polpa celulósica e custo estimado de US$ 12,37 por folha produzida em escala laboratorial.
Além da obtenção da celulose, os testes mostraram que o material produzido apresentou características adequadas para aplicações em embalagens e outros produtos à base de papel. As folhas fabricadas a partir das fibras de açaí apresentaram melhor resistência mecânica, maior uniformidade visual e coloração mais clara quando submetidas às condições mais eficientes de processamento.
Os autores destacam que a valorização dos resíduos do açaí está alinhada aos princípios da economia circular e da bioeconomia amazônica, ao transformar um passivo ambiental em matéria-prima para novos produtos de maior valor agregado.
A análise de ciclo de vida realizada na pesquisa aponta, contudo, que a sustentabilidade do processo depende do uso eficiente de energia, água e reagentes químicos, além do desenvolvimento de soluções para reaproveitamento dos efluentes gerados durante a produção.
Para os pesquisadores, os resultados reforçam o potencial dos resíduos agroindustriais da Amazônia como fonte de inovação tecnológica e desenvolvimento sustentável. O estudo também amplia as possibilidades de aproveitamento do açaí para além da alimentação, fortalecendo estratégias que unem ciência, conservação da biodiversidade e geração de valor econômico para a região.
A Rede Bionorte é uma iniciativa de integração científica da Amazônia Legal que reúne instituições de ensino e pesquisa dos nove estados da região. Por meio do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Biotecnologia (PPG-Bionorte), a rede promove a formação de recursos humanos e o desenvolvimento de pesquisas voltadas ao uso sustentável da biodiversidade amazônica.
Data: 02/06/2026